quarta-feira, 12 de julho de 2017

Memórias: a Fazenda São João

A sabedoria popular aconselha não revisitar locais onde fomos felizes. O tempo passa e as coisas mudam, mas a decepção é certa. Motivado por uma referência ao excelente programa de cadastramento e visualização das propriedades rurais do Vale do Paraíba, desenvolvido pelo Inepac-Rio, e estimulado pelas facilidades digitais resolvi correr o risco e fazer uma sentimental visita virtual à Fazenda São João, que no passado distante frequentei com alegria. Se foi decepcionante constatar o ocaso de um ciclo social e produtivo que não integrei, mas tive o privilégio de ocasionalmente vivenciar, foi gratificante ter identificado em cada marco remanescente uma boa lembrança, um episódio inusitado, ou uma amizade efêmera que se perdeu no tempo. Foi doído, mas valeu!


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A Fazenda São João, fundada no início do século XIX, com foco na produção de café em grande escala, tinha originalmente 1.210 cafeeiros espalhados em 236 alqueires geométricos, e seu sucesso comercial valeu ao proprietário ser agraciado com a comenda imperial da Ordem da Rosa, em 1858. As seguidas vendas e secessões por herança, agravadas pelo fim do ciclo econômico do café, provocaram seu encolhimento e decadência. No final da década de 1940, quando a frequentei, estava reduzida a uma fração da área original, embora bem cuidada, e se sustentava com uma produção residual de café, leite e derivados, além de processar cana em cachaça, açúcar mascavo e rapadura.


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Era complicado chegar lá. Embora geograficamente localizada em Paraíba do Sul, o acesso era feito por trem até Vieira Cortez, e de lá à propriedade em lombo de cavalo, num percurso de quase três horas. Um telegrama enviado com bastante antecedência para a posta restante combinava tudo e o caminhão que fazia a coleta diária do leite das fazendas se encarregava da entrega - ele era, aliás, o único meio de comunicação regular entre o vilarejo e as propriedades, e eventualmente transportava passageiros, correspondência e pequenos volumes. Os cavalos que conduziriam os visitantes ao seu destino eram levados cedo á estação ferroviária por um peão, e na volta se arrastavam a passo lento pela estrada poeirenta, mas iam ficando mais espertos na medida em que se aproximavam de casa e após passar a última porteira até precisavam ser contidos, tal a ânsia em alcançar as cocheiras. Assim como eles, nós visitantes também espantávamos o cansaço e ganhávamos novo alento ao ver surgir no horizonte a sede da fazenda, com sua longa e simples varanda linear pontilhada por janelas e enfeitada internamente com pinturas murais, contraditoriamente escoltada pela exuberante capela dedicada a São João Nepomuceno, o mártir da discrição. Ainda bem cuidada, embora com pitadas de modernização, como as janelas basculantes de ferro que substituíram as originais de madeira na varanda, a construção contrasta com o cenário desolado do entorno.

 

 


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A lavoura de café foi a responsável pelo desmatamento na fazenda, seu apogeu econômico e o panorama atual de incipiente desertificação. A plantação original foi feita em terras de mata derrubada, como era costume na época, e quando os cafeeiros abandonados morreram sem que fosse feito o indispensável remanejo de culturas, o solo se degradou. No grande pátio em frente à varanda era feita a secagem solar dos grãos do café, que já haviam passado pelos tanques de lavagem diretamente após a colheita. Chegavam em pequenas carroças basculantes, a carga derramada era pachorrentamente espalhada e revirada pelos colonos com o uso de grandes rodos de madeira, e o lindo tapete mesclado pela variedade de cores dos grãos, exalava ao calor do sol um inconfundível e inesquecível aroma misto de terra molhada e café. Como esse processo passou a ser feito mecanicamente e em caldeiras, toda a beleza plástica do processo evaporou junto com a umidade.


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Não havia energia elétrica, mas a fazenda dispunha de uma usina simples, composta por uma roda d'água e um gerador de baixa capacidade. Um mesmo riacho supria as necessidades da casa, movia a roda e enchia os tanques de lavagem do café, que serviam de piscina na entressafra. A claudicante energia gerada só era suficiente para alimentar algumas poucas lâmpadas fracas e um rádio de válvulas, estilo capelinha, que junto com os receptores de galena montados por alguns moradores habilidosos era o centro das atenções às sextas feiras, quando ia ao ar um programa com o festejado ator, compositor e cantor Vicente Celestino. Acompanhado reverentemente por todos, dono de um vozeirão inconfundível e de um repertório um tanto brega e sinistro, alguns de seus sucessos - O Ébrio, Coração Materno, Porta Aberta etc. - ficaram marcados e até hoje ecoam na minha memória.


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Um pequeno canavial sustentava a produção artesanal de cachaça, açúcar e rapadura, sendo a cana esmagada em moenda movida por tração bovina, num processo lento e pouco eficiente. O bagaço residual era picado num cortador manual e dado como ração ao gado, e a cachaça destilada era envelhecida em grandes toneis de madeira, instalados com o alambique em galpão à parte.Tudo era devagar naquela época e naquele lugar, com as coisas acontecendo em ritmo mais ou menos inercial, sem grandes surpresas ou sobressaltos mas com impacto suficiente para marcar minha juventude e justificar a revisita nostálgica ao passado. Tudo considerado, talvez não tenha sido uma má ideia...




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