terça-feira, 8 de março de 2011

A velhinha na janela


 

Pela manhã eu havia internado minha Mãe no hospital para ser submetida a uma cirurgia de certa urgência.  Ela estava alegre e confiante como sempre, parecendo desconhecer ou desdenhar da gravidade do seu caso, mas naquela mesma noite fomos avisados que o seu estado de saúde  se agravara. A cirurgia fora abortada devido a duas paradas cardíacas ocorridas durante a anestesia, ela estava então em coma induzido, os médicos sintomaticamente liberaram as visitas mesmo à noite, e um clima de despedida estava implícito no ar.
 
Embora já tenha enfrentado algumas vezes essa situação extrema, sempre me senti inibido pelas circunstâncias e nunca soube exatamente como proceder. Conheço relatos sobre os doentes escutarem e entenderem o que se fala, mas as palavras não me saem. Entrei na ampla UTI e encontrei minha mãe em companhia de outros pacientes graves, uns dormindo ou sedados como ela, outros alertas mas inertes.  Ela estava serena e bonita como sempre, parecendo dormir tranquilamente. Mudo e emocionado segurei e apertei sua mão por alguns minutos, sem sentir qualquer reação, beijei-a e fui chorar lá fora.

*
Quando éramos crianças, nossa Mãe eventualmente dedilhava um violão e com sua voz pequena porém afinadinha, cantava para nós modinhas antigas, cantigas de roda e canções folclóricas. Crescemos, casamos, nos dispersamos e nunca mais a ouvi cantar. Alguns anos depois estávamos todos reunidos de novo, morando à sua volta em Copacabana. Meu Pai morreu, e quando ela se recuperou do baque passou a cultivar um novo hábito, coerente com sua atenção a tudo que se passava no mundo: lia o jornal atentamente e marcava artigos, notícias ou trechos de textos que tinham despertado a sua atenção, para reler em voz alta e comentar comigo nas visitas quase diárias que lhe fazia.  Depois de algum tempo entendi que era uma forma de prolongar nosso convívio, pois sempre que passava lá era rapidamente, apenas para vê-la.

Ao final desses encontros ela ficava na janela esperando até me ver sair do prédio,  sorrindo e acenando, visivelmente feliz. Eu caminhava até  final da rua e antes de dobrar a esquina olhava de novo e lá continuava ela, sorrindo e acenando.

 *

Sempre que caminho agora por aquela rua curta e estreita, atulhada de carros, olho instintivamente para aquela janela vazia, e triste apresso o passo. Antes de dobrar a esquina, porém, não resisto e olho de novo, e lá está ela sorridente a acenar - a velhinha na janela. 





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Este texto despertou em alguns leitores lembranças de suas próprias infâncias e respectivos relacionamentos maternos, com um inesperado componente comum a todos - a música, o fio condutor de todas essas recordações. Os emocionados e emocionantes comentários publicados merecem ser lidos, por tudo quanto significam em termos de agradecimento e reconhecimento a essas figuras ímpares, nossas Mães!



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4 comentários:

Adelyne disse...

Tio,
obrigada por compartilhar suas lembranças. Fiquei muito emocionada imaginando a cena...
Lembro da vovó Irô com mto carinho, das coisas que ela fazia, sempre do mesmo jeitinho.
Minhas lembranças tem aroma de bife (o incrível bifinho que ela fazia, na manteiga, um sabor que jamais provei igual, pra gente jantar com pãozinho assado naquela torradeira antiga, que dava pra ver toda infra-estrutura interna -rss) e de perfume (o Calandre, que ela usava e que herdei o gosto e ainda hoje, tb uso).
Ela era linda e mto elegante.
Estava sempre arrumadinha mesmo dentro de casa e se maquiava pra sair, mesmo depois de viúva.
Uma vez questionei pq ela ia pintar os olhos apenas para irmos comprar pão, na esquina e ela, com seus mais de 70, respondeu, sabiamente: nunca se sabe quem vamos encontrar na rua.
Que sorte eu tive por ter convivido com ela e tb de ter ouvido, muitas vezes, ela cantar no violão "encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora..."
Linda e inesquecível vovó Irô!!

Fluiz1971 disse...

Isso me lembra da minha mãe/avó que faleceu ano passado aos 88. Ela, toda vez que ia ve-la, sempre tinha uma mesma história para contar, afim de prolongar a minha escassa estada. Ao sair, ela sempre estava na entrada da casa, a me dar tchau, quantas vezes eu olhasse e, tenho certeza, quantas vezes em sua mente, e eu, na minha, no caminho de volta para casa. E, outra coisa, cresci e me desenvolvi, ouvindo Gardel e La cumparsita.

Obrigado por, por tabela, me reviver tal lembrança, tão gostosa e importante em minha vida.

Ayane disse...

Nossa tio, me emocionei com essa história..Minha vó era tão liindaaa ! Acho interessante conhecer as hitórias dela, pois eu era muito pequena qd ela nos deixou e infelizmente não posso me recordar de muitas coisas. Achei bacana o que Adelyne disse tbm. Acho que minha avó tbm não deve resistir em visitar aquela janela...

Getulio Avelar disse...

Lendo sobre Dona Irô (se não me engano, o nome é este), a Sra. Sua Mãe,logicamente, lembrei-me da minha, e dos momentos "solenes e amorosos" que minha mãe me proporcionou. Em 1948, contando eu com seis anos de idade, nos mudamos da agitada Travessa do Ouvidor, centro do então Estado da Guanabara, para a,naquela época, pacífica e acolhedora Ilha do Governador.
Os lapsos da memória me vêm surgindo, desde o momento em que o caminhão que transportava nossa mudança era transportado pela barca,atravessando a distância que separava a Praça XV, no Centro da Cidade do Rio de Janeiro para a Ribeira, já na Ilha, e de lá para o Cocotá, onde vivi até os meus 21/22 anos.
Lembro que minha mãe transformou-se em uma máquina, cuidando de tudo e sendo consultada para tudo e por todos. Lembro, também, que eu só conhecia areia de praia, para onde eu era levado por irmãos mais velhos, e nunca tinha visto terra e, cansado pela algazarra da mudança, achei por bem obter a autorização de minha mãe para sentar no chão, o que foi concedido de imediato.
Assim crescemos, em uma imensa gleba de terra, com a algazarra natural de uma família muito grande.
Devido aos afazeres de minha mãe que, sozinha, cuidava de tudo,
somente vim a descobrir que ela era uma exímia organista lendo,
inclusive, o que para mim eram indecifráveis partituras, quando eu contava já com 9 ou 10 anos.
As músicas eram executadas em um velho órgão que meu pai havia comprado em um leilão, do qual saiam, pelos dedos de minha mãe no teclado e pelos pés nos dois pedais, músicas lindas e acalentadoras que até hoje me
recordo:

Despertai donzela, pois a noite é bela, vem ver o luar;
Vem ouvir os cantos, trinados encantos que vem lá do mar;
Somos pescadores, que cantando amores, vamos à barra a fora;
Nesta doce hora, quando se namora, ao romper do dia.

Mas a linda moça sai da velha choça, gentil e faceira;
Trás arregaçada, a saia encarnada de chita grosseira;
E cantarolando vai feliz guiando seu rebanho amado;
Do seu namorado, quando se namora ao raiar do dia.

Havia, também, outras músicas maravilhosas, como:
Eu quisera ser a hera, para na parece subir. Para chegar à janela do seu
quarto de dormir, do seu quarto de dormir.
Guardei na mão um sorriso, de sua boca mimosa. Quando fui abrir a mão
estava toda cor de rosa, estava toda cor de rosa.
O meu coração voando, dentro do seu foi cair. Senti a alma perdida de lá
não poder sair, de lá não poder sair.

Muitas vezes, aquelas mãos que tocavam tão maviosamente o órgão,
transformavam-se em mãos de "bóia fria", pois, empunhavam o cabo de uma enxada e, aquela pequena e frágil senhora deixava, com seu trabalho braçal, uma grande extensão de terreno inteiramente limpo.
O tempo passou. Os filhos foram casando e mudando. Então, em meados do ano de 1980, estimulados pelo então governante do Estado, centenas de pessoas invadiram nosso imenso terreno e, o que era um verdadeiro paraíso, transformou-se no que é hoje a terrível favela do Dendê.
Minha mãe mudou-se então com meu pai para um apartamento no próprio
Bairro do Cocotá e lá, sempre na companhia constante dos filhos que
sempre os visitavam, viveu até 1995aos 89 anos de idade, três anos após o falecimento de meu pai, deixando em todos os filhos uma imensa sensação de vazio.
Posso afirmar que, até hoje, sinto muita falta de Dona Izabel, minha
mãe.
Grande abraço do Getulio.