segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Diários de bicicleta


Como toda criança da minha época e depois já adulto, tive fases de interesse por   bicicletas, barcos e automóveis,  As bicicletas, inicialmente a única diversão acessível, tiveram seu período de glória durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, quando o racionamento de gasolina e a suspensão da importação de automóveis esvaziaram as ruas, facultando sua utilização segura em variados percursos. Foi nessa época, de curta  duração, quando ciclovia era uma palavra ainda desconhecida, que vivenciei alguns bons e irresponsáveis momentos sobre duas rodas.

Adeus minha Praça Onze

Juntamente com o tio e primo que moravam em Vila Isabel fui algumas vezes de bicicleta à distante praia do Flamengo, onde havia um pier em frente ao atual Hotel Novo Mundo. Era um passeio demorado e havia necessidade de fazermos uma parada em algum ponto do trajeto para descanso e hidratação, especialmente na volta; foi quando descobrimos a já então bastante descaracterizada Praça Onze.


Praça Onze, década de 1950 (acervo O Globo

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Além de samba, a Praça Onze tinha sua companheira inseparável, a cerveja. Alguns casarões do entorno abrigavam enormes cervejarias e botequins típicos que, naquele cenário de obras e transição, tinham aspecto decadente, mobiliário decrépito e sanitários deprimentes. Apesar de tudo, foram o nosso salvador ponto de apoio para a indispensável reidratação, a escala obrigatória na ida e na volta dos circuitos pela Zona Sul, e neles consumíamos nossos copos de Hydrolitol* na indefectível companhia do "retrato do velho", a foto onipresente do presidente Getúlio Vargas, que embora destituído em 1945 ainda permanecia premonitoriamente nas paredes. Aproveitávamos cada gole e cada segundo daquelas paradas, desfrutando prazerosamente de tudo aquilo que pareceria inadequado a pessoas mais sensíveis, desavisados quanto ao fato de estarmos participando de uma histórica morte não anunciada...
       
Boteco clássico: retrato de Getúlio Vargas e "reclame" do Hydrolitol

(*) Hydrolitol era uma bebida refrigerante e efervescente preparada na hora, um pó semelhante a sal de frutas vendido em sachês, que se dissolvia em um copo d'água gelada. Tinha sabor semelhante ao Aquafresh e deve ter sido o bisavô dos atuais Tangs e similares.

*

"Adeus minha Praça Onze , adeus,
Já sabemos que vais desaparecer.
Leva contigo a nossa recordação,
Pois ficarás eternamente
Em nosso coração."


 






De Taioba para o Alto

Quando mudamos para o novo apartamento na Tijuca, numa rua então sem saída próxima à Praça Afonso Pena,  descobrimos  que as incursões ciclísticas, até então limitadas às praias e partes planas dos bairros, poderiam ganhar literalmente mais impulso e subir de patamar - descobrimos os "taiobas"! Assim eram apelidados os bondes bagageiros, um veículo especial para transporte misto de cargas e pessoas, que circulava pelos bairros em horários preestabelecidos e de pouco movimento.


Um "taioba" em ação

Havia uma linha cujos carros subiam até o Alto da Boa Vista, fazendo ponto final e retorno em frente ao portão de acesso ao Parque Nacional Floresta da Tijuca, na Praça Afonso Vizeu. Era  fácil embarcar com as bicicletas no taioba, entrar no parque para  tomar um proibido banho de cachoeira na famosa Cascatinha e depois descer em alta velocidade a Avenida Edson Passos até a Muda, sem dar uma só pedalada. 

Descer a larga avenida vertiginosamente, com a adrenalina nas alturas e sem qualquer equipamento de proteção era a nossa razão de estar ali. Significava um contraponto à lenta subida de bonde, ao anticlímax da água gelada e à indescritível sensação de liberdade proporcionada pelo vento que nos fustigava o rosto e secava o corpo.  Aquela garotada alegre e irresponsável nunca considerou os potenciais perigos daquela brincadeira que zelosamente escondia dos adultos - e felizmente nenhum acidente jamais aconteceu - mas sempre houve a percepção de haver alguma coisa mágica implícita naqueles momentos, que marcariam suas existências para sempre.

Como tudo na vida, foi bom enquanto durou e com o boom automobilístico e a extinção dos bondes as bicicletas foram definitivamente aposentadas e substituídas mais tarde por   novas atrações, no meu caso os barquinhos a vela.  Vida que segue, as crianças cresceram, seus brinquedos também, e se sofisticaram.

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Entre as atrações da Floresta da Tijuca, uma se destacava no meu imaginário por tudo quanto representava num misto  de  mistério e inacessível beleza - a Capela Mayrink. Sempre soube que seu interior, quase que permanentemente vedado à visitação pública, abrigava obras preciosas de Portinari  doadas pelo colecionador e mecenas Ramundo de Castro Maya. Passei por lá várias vezes, em vão, até que em uma dessas oportunidades calhou de estar sendo realizado um casamento, quando pude então ver presencialmente o que somente conhecia por fotos. Valeu o esforço, pois somente muitos anos mais tarde, em 2013, os painéis foram doados ao Museu Nacional de Belas Artes e ali passaram a ser regularmente exibidos em segurança. Na minha opinião, porém, cópias poderiam ser levadas à capela, para reconstituir o conjunto do monumento.


Capela Mayrink (foto:Cesar Ramos)


Interior e quadros do altar (foto: Rick Ipanema)





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