segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A casa de minha avó


Minha avó materna morava no bairro de Vila Isabel, criado pelo barão José Batista de Vianna Drummond em terras adquiridas da princesa Leopoldina. Nele o visionário nobre implementou a Companhia Ferro Carril Vila Isabel - nome pomposo para uma simples linha de bondes puxados a burro, entre o bairro e o Centro, e criou o Jardim Zoológico da rua Visconde de Santa Isabel; para custear a manutenção dos animais idealizou o "jogo do bicho" como ainda hoje o conhecemos.
A casa da avó, construída nessa rua, era um sobradão antigo com uma loja embaixo e fundos colados à grande área arborizada então do Jardim Zoológico, e que atualmente abriga o Parque Municipal.Recanto do Trovador. 
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Quando mudamos de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, no início de 1944, ficamos provisoriamente alojados nessa casa, uma espécie de "coração de mãe", compartilhada com tios e primos. Foram os tempos difíceis da guerra, para os adultos, e um período de muita alegria para a criançada, que desfrutava despreocupada da mata frondosa e acessível logo ali atrás, com seus lagos, fontes e árvores frutíferas. Pulávamos o muro do quintal e passávamos horas explorando aqueles recantos belíssimos, subindo nas árvores para colher frutas, chapinhando no lago e observando os pássaros. Éramos felizes e sabíamos.
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Na loja do térreo funcionava uma oficina de conserto de calçados, propriedade de um italiano oriundo de Nápoles. Era uma figura interessante, muito magro e alto, grande nariz sublinhado por um bigodinho fino, havia quem ressaltasse sua semelhança física com o líder francês General De Gaulle. O sapateiro morava com a família nos fundos do lugar, durante a semana trabalhava duro remendando calçados, colocando solas e meias-solas, e seus dedos maltratados pela labuta eram tingidos de graxa e tinta e retorcidos pelos golpes das ferramentas. Aos sábados encerrava o expediente ao entardecer, baixava metade da porta de aço e logo chegavam dois ou três conterrâneos. Os amigos abriam uma garrafa de vinho e partilhavam lascas de pão e queijo, e os instrumentos rudes do ofício eram substituídos por delicadas palhetas e plangentes bandolins. Naquele instante mágico o sapo de avental manchado virava príncipe e com os companheiros passava a entoar belas canções e árias do repertório operístico italiano. Para os meus olhos e ouvidos atentos de menino sonhador, a loja suja transmudava-se em fina câmara, onde era a platéia privilegiada de um seleto recital. Nunca mais esqueceria o encanto daquelas tardes e a magia dos seus personagens, e lhes seria para sempre grato pela rara oportunidade de compartilhar aqueles momentos de nostalgia e prazer que me abririam as portas de acesso ao mundo encantado da música. 


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Um comentário:

vence.dora disse...

A simples leitura nos transporta a um tempo fantástico: o de viver o espaço que nos rodiava, o bairrismo, um tempo digno de ter sido vivido.
Fica a certeza que, se a cada década vivida daqui prá frente, diminuindo as chances de se contar o inédito, o autêntico, com os sete sentidos dados por um Criador, pior a certeza de não termos quem as conte!