domingo, 23 de janeiro de 2011

Angra dos Reis, 1951


Angra dos Reis, em 1951, era um decadente polo pesqueiro e estagnado porto exportador de produtos siderúrgicos cercado por uma natureza exuberante, com mar, ilhas e praias de rara beleza.  Uma das mais antigas cidades do país, era feia, suja e maltratada e ainda não havia sido descoberta pelos turistas e especuladores imobiliários, tanto pela precariedade de acesso, que então se fazia por  embarcações partindo da vizinha  Mangaratiba ou pela estrada Rio-São Paulo, descendo a Serra do Mar desde Barra Mansa, como pela total ausência de infraestrutura hoteleira ou regulação fundiária.

Esse foi o cenário escolhido pela Marinha do Brasil para implantar o recém criado Colégio Naval, que ocuparia na bonita Enseada Batista das Neves o também antigo complexo onde funcionou a Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio de Janeiro, readaptado para acolher de uma só vez mais de 300 jovens estudantes na faixa dos 15 anos de idade, oficiais, professores e instrutores oriundos das mais diversas regiões do país.


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O Colégio Naval em 1951

Desnecessário ressaltar o impacto dessa massiva imigração multicultural no panorama econômico e social da cidade, estagnada no tempo e no espaço, e também nos corações e mentes daquela rapaziada sonhadora, apartada do convívio físico com seus  familiares e amigos  e submetida a um isolamento agravado pelas imensas dificuldades de comunicação,  numa época em que até o funcionamento dos telefones era precário. Na sentida ausência  de rádios locais, a comunicação social pública era suprida por um sistema de altofalantes acoplados aos postes de iluminação,  predominantemente instalados na Rua do Comércio e na praça do Porto, onde a juventude da cidade se reunia  nos finais de semana.  Transmitiam rápidos anúncios, notícias de interesse local e pricipalmente músicas, boa parte delas no esquema de oferecimento entre namorados. Às 22 horas a programação se encerrava e as luzes da iluminação públicas eram apagadas, e esse era também o horário limite para que os alunos se reapresentassem no Colégio, a dois quilômetros de distância cobertos a pé por uma estrada às escuras.

Essa paisagem urbana desolada e deprimente tinha como contraponto a  exuberante natureza que abraçava e limitava a cidade com seus morros, matas e cachoeiras, por um lado, e por outro lhe oferecia a infinitude de um mar sereno e sedutor, espelho d'agua cristalina pontilhado de ilhas de belas praias e deslumbrantes enseadas, à espera dos visitantes ocasionais. Como pouco havia para se fazer em terra, seguíamos o lema naval - marinheiros, rumo ao mar!

O Colégio Naval possuía uma flotilha de antigos escaleres de madeira, utilizados nos exercícios de remo. Seguros porém pesadões, cada embarcação dessas era guarnecida por dez remadores, mais o patrão encarregado do leme, tendo como alternativa serem arvorados com dois mastros que vestiam velas triangulares ou   latinas . Com essa armação, prática e ideal para passeios e incursões conhecidas na gíria marinheira como "patescarias",  respondiam bem a qualquer intensidade de vento ou mar, apesar do peso, e eram facilmente conduzidos por um mínimo de quatro tripulantes.

Foi nesses barcos básicos e rudes, mas muito espaçosos, que assim como outros colegas me iniciei nas artes da vela e nos caprichos dos ventos, nos segredos das marés e no respeito à força e encanto da natureza. Velejando todo final de semana naquela baía tão pródiga em atrativos e também perigos, enfrentamos calmarias e tempestades, superamos coroas, lajes e parceis dissimulados, e acampamos em praias selvagens em ilhas desabitadas. O sol e o sal daquelas águas curtiram nossas peles e incutiram em nossas mentes a certeza de que nunca mais esqueceríamos Angra dos Reis nem as lições daquele raro aprendizado; ao partirmos para a nova etapa da carreira, agora na Escola Naval, tinhamos com orgulho a sincera convicção de que sim, eramos marinheiros!


 

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