segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Paulette


Corria o ano sem graça de 1968, o país seguia resignado seu destino sob o comando de um marechal gaúcho, nosso banco era comandado por um político gaúcho e sua recém criada Diretoria do Pessoal tinha como titular outro gaúcho, funcionário de carreira aposentado e concunhado do ditador da hora. Foi a esse cenário extremamente conservador que fui agregado como assessor técnico da diretoria, por indicação do meu chefe de então - mais um gaúcho!  Como carioca da Tijuca, flamenguista e liberal eu era um estranho no ninho, e escapei por pouco de vestir bombachas e bombear chimarrão.


Alguns meses antes  houve um concurso público de âmbito nacional para ingresso no banco e o período de divulgação dos resultados e encerramento dos trâmites finais para nomeação dos aprovados coincidiu com minha chegada à Diretoria. Segundo as regras amplamente divulgadas, o  aproveitamento dos candidatos e sua distribuição pelas diferentes regiões do país obedeceria à ordem de classificação.Tudo sempre funcionou assim, sem sobressaltos, com um possível arranjo sutil aqui e outro acolá, até que o imprevisto aconteceu, de maneira nada discreta e muito impactante para os costumes e padrões morais da gauchada da época: aprovado nas primeiras colocações, o que lhe assegurava a nomeação para um bom lugar no Rio de Janeiro destacava-se, de forma inédita, um assumido travesti!


Seu "nome social" era Paulette.

Paulette era um obstinado, em cruzada pessoal pela aceitação de uma opção sexual totalmente fora de contexto na época. Tinha cabelos longos e oxigenados crescidos até os ombros, usava discretos figurinos e maquiagem femininos e era bem apessoado. Mas despertava muita curiosidade, e a simples perspectiva de ter tal figura integrando os conservadores quadros funcionais do banco no atendimento ao público deixava todo o grupo dirigente perplexo e incomodado. Decidiram convocá-lo para uma entrevista pessoal claramente destinada a induzir  sua desistência, confrontando-o com a hipótese de ser localizado em alguma remota cidade interiorana onde exteriorizar sua sexualidade seria insustentável, ou até de ser desclassificado por "desvio de conduta". Inabalável na defesa dos seus direitos e exigindo o cumprimento das normas que lhe garantiam permanência no Rio, ele venceu, mas o preconceito do banco prevaleceu: foi nomeado e localizado na cidade do Rio de Janeiro, como exigia e tinha direito, mas num obscuro setor interno de algum órgão remoto, praticamente segregado. De tal forma que nunca mais ouvi falar nele.  


Alguns anos mais tarde fui incumbido da reestruturação de um departamento administrativo do banco, para inseri-lo no incipiente programa geral de informatização dos serviços bancários. Estávamos então entrando na era dos mainframes, dos PCs e seus monitores de fósforo, do DOS, e da programação feita a mão em grandes folhas de papel quadriculado - um avanço notável, considerando que os ícones de modernidade da época ainda eram as máquinas de escrever elétricas. No decorrer dos trabalhos de campo, a equipe deparou-se um estranho setor onde os funcionários trabalhavam por tarefa em uma sala quase escondida, fora do horário normal de expediente, encarregados de extrair alguns dados estatísticos repetitivos de determinados documentos  e datilografá-los em papel para atendimento de consultas externas. Chegavam antes do horário do expediente normal, cumpriam suas metas e desapareciam. Todos eram, de certa forma e sob a ótica administrativa classificados como  problemáticos, e não fosse pela produção realmente oferecida, poderiam ser considerados "fantasmas". Como essas tarefas eram simples e repetitivas, facilmente informatizáveis em diferentes etapas do processamento, decidiu-se extinguir o serviço e realocar os funcionários em outros setores, compatibilizando na medida do possível suas conveniências e problemas pessoais com o interesse da administração. Os integrantes do grupo foram então convocados a uma entrevista pessoal para apresentar seus  pleitos, e foi assim que reencontrei... Paulette!

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Esses fatos aconteceram há mais de quatro décadas, em um ambiente totalmente hostil que refletia o comportamento homofóbico da época. Infelizmente essa história não deve ter tido um final muito feliz pois encaminhado ao departamento do Pessoal para ser relocalizado, Paulette sumiu de novo!...


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sábado, 11 de junho de 2011

Kim


"Eu nasci pequenininho, como todo mundo nasceu...
Não, essa é a canção. Eu nasci muito pequenininho, mais pequenininho do que todo mundo nasceu, e tão feio e fraco que escutei as pessoas falarem que não vingaria, embora não entendesse bem do quê ou de quem deveria me vingar.  Minhas cinco irmãs eram lindas, gordas e fortes e me jogavam de um lado para outro, daí eu não conseguia mamar e estava ficando mais fraco ainda. Nós nascemos em uma pousada em Angra dos Reis, que pertencia a um casal também com uma família grande, o Faroleiro e a Patroa. Eles chamaram um médico de cachorros que me examinou muito e comentou com a Patroa alguma coisa referente ao meu coração, amor e carinho. Não entendi bem o que quiz dizer com isso, só sei que ela respondeu que cuidaria de mim como se fosse um filho, conseguiu uma maneira de ordenhar minha mãe como se fosse uma vaca, depois colocava o leite numa mamadeira de brinquedo e me dava de mamar como se fosse uma boneca. Acho até que misturava alguns remédios  no leite, e com isso fui ficando mais forte e esperto e logo pude disputar as tetas da mãe com minhas irmãs gorduchas. Mas sempre fui pequenininho, como todo mundo ao nascer.  



Minhas irmãzinhas foram se mudando e com o tempo só restou a Key, a mais gordinha e medrosa das cinco. Brincávamos muito e quando a casa estava cheia o Faroleiro subia para descansar no segundo andar, onde ficava o apartamento do casal, utilizando uma escada em caracol que ficava num canto do salão. Estruturada em ferro e com degraus forrados de madeira grossa, que pareciam flutuar no espaço, era imponente e linda! Sempre quiz conhecer o que havia lá em cima, mas tinha muito medo da Caracol. Um dia sem haver ninguém por perto me aventurei a tentar subir, mas ainda era muito novinho, minhas patinhas curtas não davam altura e fui obrigado a pular de um degrau para outro, na terceira tentativa consegui mas como o impulso foi grande, as patas deslizaram na madeira polida e despenquei pelo outro lado! Doeu, no corpo e na alma. Fiquei apavorado e desde aquele dia sempre que olhava respeitosamente para ela, a Caracol, tinha a impressão de que estava considerando com severidade a minha pretensão e havia ajudado no tombo. Nunca mais tentei. Não tentei, mas o Faroleiro algumas vezes me levava no colo até lá, quando fazia frio. Ele recostava numa cadeira espreguiçadeira para ouvir música e se cobria com uma manta xadrez, levantava uma das pontas e eu me aninhava gostosamente aos seus pés. 



Foram  sete poucos anos de convivência feliz quando comecei a me sentir muito cansado. Às vezes tentava correr e brincar mas perdia o fôlego e sufocava. Coisas do coração, diziam os médicos - até mesmo um médico de gente que a Patroa conseguiu que me examinasse. Coração! seria amor demais? Naquela manhã me sentia muito cansado e fiquei deitado o tempo todo, mas a certa altura senti uma coisa diferente, uma angústia, uma forte necessidade de estar junto ao meu amigo. Lentamente andei pela casa e conclui que o Faroleiro estava descansando no segundo andar, mas precisava vê-lo, precisava que me visse, precisava estar com ele sem muita perda de tempo. A Caracol estava lá no seu canto, imponente como sempre e como sempre um desafio à minha capacidade. Consegui reunir forças para enfrentá-la, subir pela primeira vez um a um todos os seus degraus,  e chegar ao patamar, ofegante mas vitorioso, pois precisava estar lá, precisava vê-lo! Após alguns segundos para recuperar a respiração, subi na cama e deitei do outro lado, olhos fixos  na espreguiçadeira onde o Faroleiro cochilava, mas pouco pude permanecer ali pois um estertor denunciou minha presença e despertou o grande amigo.

Foi uma correria e tanto, a Patroa chorava, o Faroleiro parecia muito aflito mas eu estava feliz, havia superado as minhas limitações, estava junto do meu amigo e, sobretudo, havia vencido a Caracol! Voltei a cabeça no colo da Patroa e olhei vitorioso para ela, a Caracol, que lá continuava  bela e imponente, mas sua figura foi-se tornando difusa, parecia agora envolta em névoa cada vez mais forte, foi sumindo, foi sumindo, foi sumindo..."

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Kim sobreviveu sete anos contra todos os prognósticos e expectativas dos veterinários e morreu nos braços da Patroa que lhe garantiu a vida. Seu corpo foi enterrado na floresta nos fundos da pousada e se os cães têm alma, a sua deve estar agora se divertindo correndo atrás dos gambás que por ali passeiam.






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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pousadinha em Angra dos Reis

Os sítios proporcionam aos seus proprietários duas grandes alegrias -  quando são comprados e quando são vendidos. (ditado popular)
As pousadas também...

Nossa pousadinha em Angra dos Reis, na verdade uma guest house era um insuspeitado sucesso internacional quando um visitante até então desconhecido desembarcou da lancha apoitada em frente, atravessou o jardim e após rápidas apresentações disparou a queima roupa:  "gostaria de comprar essa pousada, vocês venderiam?"

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Tudo começou como geralmente começa - com a necessidade de preencher o vazio de uma aposentadoria tediosa com novos desafios.  Angra dos Reis sempre foi um destino muito especial para mim desde que ali aportei pela primeira vez, em 1951, como aluno do recém criado Colégio Naval. Tinha 17 anos, uma possível carreira pela frente e a inquietude própria dos jovens nessa idade. Bebi a água da Fonte da Carioca, que diziam ter o poder de enfeitiçar os visitantes e fui cooptado pela beleza até então quase intocada daquela natureza selvagem e deslumbrante. Anos mais tarde comprei minha primeira casa na cidade, e sob a proteção do Senhor do Bonfim em sua Ermida, numa ilhota em frente à praia de mesmo nome, nela me abriguei para repensar o futuro pós-aposentadoria.
 

Ermida do Senhor do Bonfim

Foram alguns meses de euforia com a falta de compromissos, alimentada pela alegre sensação de dispor de todo o tempo ocioso do mundo, logo sufocada pelo tédio decorrente da ausência de uma rotina mínima vinculada a alguma atividade que exercitasse o físico e lubrificasse a mente. Caí inicialmente na armadilha recorrente de aceitar ser síndico de um condomínio cheio de problemas legais, dívidas e carências estruturais que consegui sanear ao longo de um mandato de dois anos extenuantes, tempo suficiente para entender que deveria me dedicar a outras atividades mais compensadoras ou pelo menos não tão frustrantes. E cai em outra armadilha, agora com a cumplicidade de minha esposa:  abrimos uma pousada!

Sempre tive simpatia pela rede internacional de hospedagem conhecida como Guest Houses World - casas de famílias em que viajantes solitários ou jovens casais são acolhidos pessoalmente pelos donos, que lhes oferecem simplesmente cama e café da manhã, o bed & breakfast de sua classificação alternativa, modernamente conhecidas também como  hostels.  Nossa nova e ampla residência na enseada da Biscaia, com suas cinco suítes independentes e localização privilegiada na areia da praia,  tinha tudo para se enquadrar nas rígidas exigências impostas pela organização mundial e ser aceita como participante pioneira da modalidade em Angra dos Reis.
Assim foi feito!  


A Enseada da Biscaia, em 1983

Projeto implantado, nossa até então sonolenta e tediosa rotina diária foi quebrada e passou a ser agitada pela presença agora constante e  instigante  de jovens estudantes e aventureiros oriundos de todas as partes do mundo, aquela tribo que hoje chamamos de mochileiros, pobres em bagagem mas ricos em tradições e costumes diferenciados que aos poucos íamos assimilando. Ali conviviam em paz, ainda que por poucos dias, a diversidade de idiomas com personagens muito peculiares,  etnias em eterno conflito em outras paragens, crenças dissonantes e nacionalidades pretensamente incompatíveis em qualquer outra parte do mundo, sob os olhares atentos e a regência amiga daquele casal de meia idade que, embora de forma passageira, os acolhia com carinho e lhes proporcionava a sensação  reconfortante de integrarem uma família.  E que de coração lhes agradecia por povoarem com novas vidas e alegrarem com novos sons  aquele casarão praticamente desabitado.  Fomos guias e companheiros daquela turma descolada em alegres passeios pelos recantos deslumbrantes que já conhecíamos de longa data, algumas vezes enfermeiros e quase sempre depositários da confiança daqueles jovens, sedimentando novas amizades que se prolongariam no futuro através das então incipientes redes sociais virtuais.

Naquele momento estávamos felizes e realizados com o sucesso da empreitada, que nos trouxera uma nova visão do mundo, mas já um pouco  cansados daquela babel; a proposta inesperada chegava em boa hora!


Nossa guest house na praia da Biscaia

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À noite, já na cama, conversamos sobre os acontecimentos do dia, analisando a visita surpresa e a  surpreendente e inesperada "proposta hostil" de compra da pousada. Reconhecemos, mais uma vez,  que embora cansativa a experiência tinha sido rica sob todos os aspectos e nos questionamos se estaríamos prontos para novos desafios, caso optássemos pela venda.  Após um momento de silêncio e reflexão, troca de olhares e sorrisos cúmplices, minha mulher encerrou o assunto de forma sucinta e definitiva:

-"Vamos dormir. Amanhã começaremos a pensar na mudança"...

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terça-feira, 29 de março de 2011

Nascer, viver, morrer...

Seu nascimento foi participado a parentes e amigos da família de forma bastante criativa, mediante um cartão de visitas com uma única palavra - Nasci - seguida do nome e endereço.   No decurso da sua já então razoavelmente longa vida, sempre alimentou divertidos devaneios sobre as contraditórias interpretações que esse inusitado recado na primeira pessoa, afirmativo, curto e objetivo poderia suscitar, se seria apenas uma inocente comunicação, como parecia ou uma espécie de advertência velada à humanidade perplexa, do tipo "nasci, vocês vão ter que me engolir"...

Há inúmeras  alternativas e interpretações para o que possa ser considerado uma vida bem vivida,  desde aquelas iluminadas pelo brilho do sucesso que se mede em dinheiro, vinho, mulheres e música às indigentes que se escoam opacas e sem perspectivas na trágica zona cinzenta onde prevalecem sangue, suor e lágrimas - e seus derivados. Entre essas situações limites caminha a maioria da humanidade, lutando para fugir da mediocridade, vencer preconceitos, superar desafios.

Fazendo um retrospecto de sua trajetória, reconheceu ter vivido múltiplas vidas, sobrepostas umas, conflitantes outras, complementares algumas, traumáticas umas poucas, mas  fechado o balanço final o saldo  lhe parecia amplamente favorável. Reconheceu também ter contado algumas vezes com a providencial ajuda do destino, que o apresentou às pessoas certas nos momentos incertos. Reconheceu, ainda, que deveria agradecer à humanidade em geral por relevar aquela pretensa presunção inicial descabida e concordar em substituí-la pela humildade com que agradecia a cordial acolhida. Ao final, concluiu, não chegou a ser engolido nem repelido - foi assimilado.

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Ao sentir que lhe resta pouca areia na ampulheta do tempo, quem viveu e amou a vida lúcida e intensamente começa a se deparar com o fantasma do esquecimento assombrando seu imaginário, pois se a vida é uma peça, como assegurava Shakespeare, pior do que sair de cena é sair do elenco sem deixar lembranças. É preciso se preparar para o encontro com Caronte e sua barca da morte, para a longa viagem do esquecimento, cuidando de deixar pelo menos algumas pegadas da sua passagem. Ele agora cuidaria disso...
 

"Agora é o outono, o cair dos frutos
e a  longa viagem para o esquecimento.
.....
Constroi a tua barca da morte, a tua!
vais precisar dela.
Espera-te a viagem do esquecimento."
(D.H. Lawrence, A Barca da Morte)



sábado, 19 de março de 2011

A casa do meu Avô


A casa era quase centenária, estreita e comprida, com janelas na fachada que abriam para a calçada da rua, como usual na época de sua construção. Era térrea em sua maior parte mas assobradada no meio, com quatro quartos sobre o grande salão de refeições, a que se chegava por um longo corredor formado por uma parede cega à esquerda e a outra com portas voltadas para três salas sucessivas - duas de visitas e um escritório -, interligadas  internamente por vãos em arco emoldurados em madeira trabalhada. No corredor e no salão meias paredes eram revestidas por lindos azulejos portugueses, em alto relevo, exibindo rosas desabrochadas  no topo de esguios caules ornados por folhas verdes. Todos os ambientes sociais, corredor, salas e salão tinham pé-direito duplo e teto forrado com taboas corridas, ornado em toda a volta por uma delicada sanca rendada de madeira que garantia a renovação do ar e, no verão, mantinha no local um clima de agradável frescor.  Suas grandes portas externas abriam para um pátio ladrilhado, que precedia o quintal propriamente dito, de terra batida; nesse terreiro, como era chamado, havia um quarto ao fundo misto de depósito e oficina do Avô, onde ferramentas caprichosamente dispostas nas portas e gavetas de um grande armário e intrigantes utensílios, equipamentos e potes de produtos químicos remanescentes da sua antiga farmácia de manipulação, reunidos numa estante aberta, deslumbravam aquele menino.  Em um dos cantos, cobertos de poeira, jaziam dois misteriosos caixotes sempre fechados cujo conteúdo o Avô, quando inquirido a respeito, disse apenas serem “coisas". Nunca mais perguntei ...


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Moramos alguns anos  nessa casa, que pertencera de início a meu bisavô.  Éramos uma típica família tijucana feliz, alegre e barulhenta, com quatro irmãos, dois cachorros, um papagaio e muitos amigos sempre presentes. Nela tive um quarto só meu, o sonho de qualquer garoto naquela idade. Ali comemorei o primeiro emprego e o posterior ingresso no Banco do Brasil, consumei meu casamento e festejei o nascimento da filha. Quando as irmãs também casaram e mudaram, sua amplitude potencializou a sensação de esvaziamento e solidão que pesava sobre meus pais, e eles retornaram ao seu apartamento menor;  o Avô, então, voltou morar lá com a segunda esposa, fechando algumas salas e o sobrado.

Médico e farmacêutico, ele dedicava suas horas vagas ao serviço social  voluntário vinculado ao Hospital São Vicente de Paulo, onde trabalhou até adoecer gravemente. Logo após completar noventa anos a doença entrou em fase terminal e tivemos um último e emocionado encontro, em que rememorou alegremente suas peripécias pilotando motos, uma das paixões da sua juventude, e as nossa idas a Teresópolis para visitar uma tia. Rimos muito, espantando as dores. No dia seguinte foi internado e não mais se recuperou.  

A casa foi vendida para ser demolida e era preciso desocupá-la, o que
 incluía esvaziar o quartinho dos fundos, coletar as ferramentas e o que mais fosse aproveitável e, finalmente, abrir os caixotes misteriosos. Com cuidado abrimos um deles e encontramos, em meio a uma proteção de jornais velhos e já esfarelados peças de prataria, louças e um finíssimo, lindo e completo aparelho de chá de porcelana chinesa. Eram as tais coisas. Na segunda caixa havia algumas peças de vestuário, fotos, e objetos pessoais de toalete e adorno de minha Avó, falecida há décadas e zelosamente guardadas desde então. Eram outras coisas...


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Antes da demolição se consumar consegui salvar alguns daqueles azulejos que sempre me fascinaram, para aplicá-los na decoração da residência que então possuía na Ilha do Governador. As transplantadas rosas, silenciosas testemunhas e cúmplices de tantos momentos felizes de nossa família, refloriram simbolicamente e continuaram a alegrar outras gerações.   

Pequenina e Júlio César


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terça-feira, 8 de março de 2011

A velhinha na janela


 

Pela manhã eu havia internado minha Mãe no hospital para ser submetida a uma cirurgia de certa urgência.  Ela estava alegre e confiante como sempre, parecendo desconhecer ou desdenhar da gravidade do seu caso, mas naquela mesma noite fomos avisados que o seu estado de saúde  se agravara. A cirurgia fora abortada devido a duas paradas cardíacas ocorridas durante a anestesia, ela estava então em coma induzido, os médicos sintomaticamente liberaram as visitas mesmo à noite, e um clima de despedida estava implícito no ar.
 
Embora já tenha enfrentado algumas vezes essa situação extrema, sempre me senti inibido pelas circunstâncias e nunca soube exatamente como proceder. Conheço relatos sobre os doentes escutarem e entenderem o que se fala, mas as palavras não me saem. Entrei na ampla UTI e encontrei minha mãe em companhia de outros pacientes graves, uns dormindo ou sedados como ela, outros alertas mas inertes.  Ela estava serena e bonita como sempre, parecendo dormir tranquilamente. Mudo e emocionado segurei e apertei sua mão por alguns minutos, sem sentir qualquer reação, beijei-a e fui chorar lá fora.

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Quando éramos crianças, nossa Mãe eventualmente dedilhava um violão e com sua voz pequena porém afinadinha, cantava para nós modinhas antigas, cantigas de roda e canções folclóricas. Crescemos, casamos, nos dispersamos e nunca mais a ouvi cantar. Alguns anos depois estávamos todos reunidos de novo, morando à sua volta em Copacabana. Meu Pai morreu, e quando ela se recuperou do baque passou a cultivar um novo hábito, coerente com sua atenção a tudo que se passava no mundo: lia o jornal atentamente e marcava artigos, notícias ou trechos de textos que tinham despertado a sua atenção, para reler em voz alta e comentar comigo nas visitas quase diárias que lhe fazia.  Depois de algum tempo entendi que era uma forma de prolongar nosso convívio, pois sempre que passava lá era rapidamente, apenas para vê-la.

Ao final desses encontros ela ficava na janela esperando até me ver sair do prédio,  sorrindo e acenando, visivelmente feliz. Eu caminhava até  final da rua e antes de dobrar a esquina olhava de novo e lá continuava ela, sorrindo e acenando.

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Sempre que caminho agora por aquela rua curta e estreita, atulhada de carros, olho instintivamente para aquela janela vazia, e triste apresso o passo. Antes de dobrar a esquina, porém, não resisto e olho de novo, e lá está ela sorridente a acenar - a velhinha na janela. 





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Este texto despertou em alguns leitores lembranças de suas próprias infâncias e respectivos relacionamentos maternos, com um inesperado componente comum a todos - a música, o fio condutor de todas essas recordações. Os emocionados e emocionantes comentários publicados merecem ser lidos, por tudo quanto significam em termos de agradecimento e reconhecimento a essas figuras ímpares, nossas Mães!



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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Diários de bicicleta


Como toda criança da minha época e depois já adulto, tive fases de interesse por   bicicletas, barcos e automóveis,  As bicicletas, inicialmente a única diversão acessível, tiveram seu período de glória durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, quando o racionamento de gasolina e a suspensão da importação de automóveis esvaziaram as ruas, facultando sua utilização segura em variados percursos. Foi nessa época, de curta  duração, quando ciclovia era uma palavra ainda desconhecida, que vivenciei alguns bons e irresponsáveis momentos sobre duas rodas.

Adeus minha Praça Onze

Juntamente com o tio e primo que moravam em Vila Isabel fui algumas vezes de bicicleta à distante praia do Flamengo, onde havia um pier em frente ao atual Hotel Novo Mundo. Era um passeio demorado e havia necessidade de fazermos uma parada em algum ponto do trajeto para descanso e hidratação, especialmente na volta; foi quando descobrimos a já então bastante descaracterizada Praça Onze.


Praça Onze, década de 1950 (acervo O Globo

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Além de samba, a Praça Onze tinha sua companheira inseparável, a cerveja. Alguns casarões do entorno abrigavam enormes cervejarias e botequins típicos que, naquele cenário de obras e transição, tinham aspecto decadente, mobiliário decrépito e sanitários deprimentes. Apesar de tudo, foram o nosso salvador ponto de apoio para a indispensável reidratação, a escala obrigatória na ida e na volta dos circuitos pela Zona Sul, e neles consumíamos nossos copos de Hydrolitol* na indefectível companhia do "retrato do velho", a foto onipresente do presidente Getúlio Vargas, que embora destituído em 1945 ainda permanecia premonitoriamente nas paredes. Aproveitávamos cada gole e cada segundo daquelas paradas, desfrutando prazerosamente de tudo aquilo que pareceria inadequado a pessoas mais sensíveis, desavisados quanto ao fato de estarmos participando de uma histórica morte não anunciada...
       
Boteco clássico: retrato de Getúlio Vargas e "reclame" do Hydrolitol

(*) Hydrolitol era uma bebida refrigerante e efervescente preparada na hora, um pó semelhante a sal de frutas vendido em sachês, que se dissolvia em um copo d'água gelada. Tinha sabor semelhante ao Aquafresh e deve ter sido o bisavô dos atuais Tangs e similares.

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"Adeus minha Praça Onze , adeus,
Já sabemos que vais desaparecer.
Leva contigo a nossa recordação,
Pois ficarás eternamente
Em nosso coração."


 






De Taioba para o Alto

Quando mudamos para o novo apartamento na Tijuca, numa rua então sem saída próxima à Praça Afonso Pena,  descobrimos  que as incursões ciclísticas, até então limitadas às praias e partes planas dos bairros, poderiam ganhar literalmente mais impulso e subir de patamar - descobrimos os "taiobas"! Assim eram apelidados os bondes bagageiros, um veículo especial para transporte misto de cargas e pessoas, que circulava pelos bairros em horários preestabelecidos e de pouco movimento.


Um "taioba" em ação

Havia uma linha cujos carros subiam até o Alto da Boa Vista, fazendo ponto final e retorno em frente ao portão de acesso ao Parque Nacional Floresta da Tijuca, na Praça Afonso Vizeu. Era  fácil embarcar com as bicicletas no taioba, entrar no parque para  tomar um proibido banho de cachoeira na famosa Cascatinha e depois descer em alta velocidade a Avenida Edson Passos até a Muda, sem dar uma só pedalada. 

Descer a larga avenida vertiginosamente, com a adrenalina nas alturas e sem qualquer equipamento de proteção era a nossa razão de estar ali. Significava um contraponto à lenta subida de bonde, ao anticlímax da água gelada e à indescritível sensação de liberdade proporcionada pelo vento que nos fustigava o rosto e secava o corpo.  Aquela garotada alegre e irresponsável nunca considerou os potenciais perigos daquela brincadeira que zelosamente escondia dos adultos - e felizmente nenhum acidente jamais aconteceu - mas sempre houve a percepção de haver alguma coisa mágica implícita naqueles momentos, que marcariam suas existências para sempre.

Como tudo na vida, foi bom enquanto durou e com o boom automobilístico e a extinção dos bondes as bicicletas foram definitivamente aposentadas e substituídas mais tarde por   novas atrações, no meu caso os barquinhos a vela.  Vida que segue, as crianças cresceram, seus brinquedos também, e se sofisticaram.

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Entre as atrações da Floresta da Tijuca, uma se destacava no meu imaginário por tudo quanto representava num misto  de  mistério e inacessível beleza - a Capela Mayrink. Sempre soube que seu interior, quase que permanentemente vedado à visitação pública, abrigava obras preciosas de Portinari  doadas pelo colecionador e mecenas Ramundo de Castro Maya. Passei por lá várias vezes, em vão, até que em uma dessas oportunidades calhou de estar sendo realizado um casamento, quando pude então ver presencialmente o que somente conhecia por fotos. Valeu o esforço, pois somente muitos anos mais tarde, em 2013, os painéis foram doados ao Museu Nacional de Belas Artes e ali passaram a ser regularmente exibidos em segurança. Na minha opinião, porém, cópias poderiam ser levadas à capela, para reconstituir o conjunto do monumento.


Capela Mayrink (foto:Cesar Ramos)


Interior e quadros do altar (foto: Rick Ipanema)





segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A casa de minha avó


Minha avó materna morava no bairro de Vila Isabel, criado pelo barão José Batista de Vianna Drummond em terras adquiridas da princesa Leopoldina. Nele o visionário nobre implementou a Companhia Ferro Carril Vila Isabel - nome pomposo para uma simples linha de bondes puxados a burro, entre o bairro e o Centro, e criou o Jardim Zoológico da rua Visconde de Santa Isabel; para custear a manutenção dos animais idealizou o "jogo do bicho" como ainda hoje o conhecemos.
A casa da avó, construída nessa rua, era um sobradão antigo com uma loja embaixo e fundos colados à grande área arborizada então do Jardim Zoológico, e que atualmente abriga o Parque Municipal.Recanto do Trovador. 
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Quando mudamos de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, no início de 1944, ficamos provisoriamente alojados nessa casa, uma espécie de "coração de mãe", compartilhada com tios e primos. Foram os tempos difíceis da guerra, para os adultos, e um período de muita alegria para a criançada, que desfrutava despreocupada da mata frondosa e acessível logo ali atrás, com seus lagos, fontes e árvores frutíferas. Pulávamos o muro do quintal e passávamos horas explorando aqueles recantos belíssimos, subindo nas árvores para colher frutas, chapinhando no lago e observando os pássaros. Éramos felizes e sabíamos.
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Na loja do térreo funcionava uma oficina de conserto de calçados, propriedade de um italiano oriundo de Nápoles. Era uma figura interessante, muito magro e alto, grande nariz sublinhado por um bigodinho fino, havia quem ressaltasse sua semelhança física com o líder francês General De Gaulle. O sapateiro morava com a família nos fundos do lugar, durante a semana trabalhava duro remendando calçados, colocando solas e meias-solas, e seus dedos maltratados pela labuta eram tingidos de graxa e tinta e retorcidos pelos golpes das ferramentas. Aos sábados encerrava o expediente ao entardecer, baixava metade da porta de aço e logo chegavam dois ou três conterrâneos. Os amigos abriam uma garrafa de vinho e partilhavam lascas de pão e queijo, e os instrumentos rudes do ofício eram substituídos por delicadas palhetas e plangentes bandolins. Naquele instante mágico o sapo de avental manchado virava príncipe e com os companheiros passava a entoar belas canções e árias do repertório operístico italiano. Para os meus olhos e ouvidos atentos de menino sonhador, a loja suja transmudava-se em fina câmara, onde era a platéia privilegiada de um seleto recital. Nunca mais esqueceria o encanto daquelas tardes e a magia dos seus personagens, e lhes seria para sempre grato pela rara oportunidade de compartilhar aqueles momentos de nostalgia e prazer que me abririam as portas de acesso ao mundo encantado da música. 


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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Agosto, 1954


Vivíamos na Escola Naval literalmente ilhados em matéria de informações. Ainda não havia  televisão, rádio era proibido nos camarotes e nos poucos momentos de lazer após o jantar a disputa maior era pelas mesas de sinuca e bilhar, raramente pelos poucos jornais ou revistas.  Havia uma total alienação pela vida política do país que existia do outro lado da ponte que nos ligava ao continente, tendo sido grande a surpresa quando na alvorada do dia 24 de agosto de 1964, no inícios dos preparativos para  a rotineira formatura e desfile da cerimônia diária de hasteamento da Bandeira Nacional circulou a notícia do suicídio do presidente da república, Getúlio Vargas.



O traslado do corpo para São Borja seria feito com embarque no aeroporto Santos Dumont - no nosso quintal. As ruas estavam fervilhando, com as pessoas emocionadas e revoltadas com  o trágico desfecho, fazendo com que as autoridades temessem pela segurança do aeroporto e dos próprios manifestantes caso as pistas fossem invadidas pela desprotegida estrada de acesso à Escola Naval, justamente junto à cabeceira mais utilizada para a decolagem dos aviões. No dia do embarque fomos posicionados justamente para guarnecer esse local e impedir uma eventual invasão popular pelo setor, uma tarefa árdua e preocupante dada a nossa inexperiência e o fato de a multidão estar histérica e descontrolada. Felizmente não houve confronto e tudo terminou bem, apesar da alta carga emocional envolvida. Com o tempo, e resolvidas as muitas atribulações políticas posteriores, o cenário institucional se  normalizou e a vida escolar retomou sua rotina mas o episódio em si, que se revelou um dos fatos mais marcantes da nossa História, teria sempre um lugar de destaque nas minhas recordações daquela temporada na Marinha.

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Quis o destino que vivesse de perto os dois dos momentos mais marcantes da vida do presidente morto: sua deposição por iniciativa militar em 1945,  quando estudava no Colégio Militar, na esteira da onda de democratização global do pós guerra, e seu suicídio em 1954, induzido pelas pressões políticas incontroláveis.  Dessas lembranças resta a certeza, sempre desdenhada pelos políticos e sempre confirmada pela História, de que as longas presidências autoritárias cansam, mesmo quando contam com forte apoio popular, e que todo retorno desses mesmos personagens, ainda que pelas via democráticas, é um retrocesso. 


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Ilha do Sol


A pequena Ilha do Sol localiza-se no interior da Baía de Guanabara, no estado do Rio de Janeiro, próxima da maior e mais conhecida Ilha de Paquetá. Originalmente conhecida como Ilha de Tapuama de Dentro, tornou-se famosa nos anos cinquenta por ter sido ali implantado um clube de Naturismo, por iniciativa da artista capixaba Luz del Fuego, que fazia sucesso dançando sensualmente com uma serpente enrolada em seu corpo nu.  Rebatizada Ilha do Sol pela vedete, atraía praticantes do nudismo e até mesmo personalidades do show business que se submetiam alegremente à regra de despir-se para poder desembarcar.
A fama da ilhota e de sua proprietária levou-nos, a mim e a mais dois colegas a velejar até lá num fim de semana para fazer o que eufemisticamente chamamos de "levantamento do local".

O iate Classe Guanabara que utilizamos na empreitada é uma embarcação de madeira de origem alemã, projetada para passeio e regatas em águas abrigadas.  Dispõe de um mastro onde se arvoram duas velas latinas (triangulares), mede 24 pés, é cabinado e facilmente manobrado por até dois tripulantes, sendo sua época áurea os anos 50/70, quando a Escola Naval tinha uma flotilha com vários deles.  Eram apreciados também por sua segurança, robustez e velocidade, apesar do peso e das velas de lona então utilizadas.  Foi num desses barcos que fizemos nossa expedição à Ilha do Sol.


 
Um Classe Guanabara em ação  

Largamos da rampa da Escola Naval numa belíssima manhã ensolarada, com muito calor e atmosfera abafada, para uma singradura que demandaria horas até aportarmos na ilha.  Soprava uma leve brisa pela popa, que empurrava o barco com preguiça no rumo certo e sem necessidade de manobras, porém aos poucos o tempo foi mudando, prenunciando a chegada de um temporal de verão. Como estávamos perto do nosso destino e tínhamos a opção de um porto seguro no vizinho Iate Clube de Paquetá, decidimos manter o rumo e o vento rapidamente nos levou à Ilha do Sol.

Luz del Fuego morava no local em companhia de um homem de meia idade conhecido como Edgar, um misto de caseiro, cozinheiro e segurança e nossa primeira visão ao circundar a ilha foi esse cidadão encarapitado no topo de uma pedra, inteiramente nu e com uma espingarda nas mãos, a esbravejar que não desembarcássemos.  Enquanto discutíamos, o tempo virou de vez e tratamos de nos afastar da ilha no procedimento padrão para essas situações,  mas a chuva forte que caiu de repente encharcou as velas, inviabilizando a manobra.  Com o barco praticamente à deriva, baixamos as âncoras e aguardamos a chuva passar.

Já escurecia quando o tempo limpou e fomos avistados por uma lancha da linha Praça XV - Paquetá que nos rebocou até o Iate Clube, onde passamos a noite.  Na demorada viagem de volta, vento de proa e inúmeros bordejos depois, comentamos os acontecimentos e rimos do insucesso da expedição, pois o sonho de ver a bailarina desnuda dançando com a cobra transformou-se no pesadelo de confrontar o jagunço pelado sacudindo o pau de fogo...


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Alguns anos após esse incidente criminosos atraíram o casal para uma emboscada e trucidaram a dupla, numa ação de vingança seguida de roubo. O Sol continuou a aquecer a ilha, mas sua Luz apagou-se para sempre.


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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Homem ao mar!


Embarcamos no NE Guanabara no cais da Praça Mauá, para um cruzeiro de poucos dias de ida e volta a Vitória (ES) e logo à nossa frente estava atracado o cruzador-escola francês Jeanne D'Arc (1931-l964) que, assim como nós, largaria na manhã do dia seguinte. Para marcar o encerramento da sua visita, o navio francês  ofereceu à noite um coquetel de despedidas,  ao qual compareci juntamente com alguns colegas designados para representar nosso veleiro.


O Jeanne D'Arc de 1953  

Logo cedo o Guanabara largou a vela, após o cruzador francês, que ganhou distância pela força das máquinas, cruzou a barra e sumiu das nossas vistas ao guinar para o sul atrás do Pão de Açúcar.  Quando entramos no mar aberto aproamos para as Ilhas Cagarras, num bordejo destinado a aproveitar o vento e abrir distância da terra, seguindo ocasionalmente na esteira do Jeanne D'Arc, agora novamente visível no horizonte. Navegávamos então num mar de pequenas ondas, com ventos moderados e perfeita visibilidade, e já estávamos prestes a deixar as ilhas por boreste quando o vigia da gávea deu o alarme: algo se debatia no mar, quase à nossa frente. 


NE Guanabara, em 1953

Alvoroço a bordo, o alvo foi identificado como sendo um cachorro.  Como teria ido parar tão longe, um mistério.  A hipótese de ter caído do navio francês ou de uma da muitas embarcações que visitavam o arquipélago das Cagarras era a mais provável. Nosso comandante, que tinha a reputação de ser apaixonado pela navegação a vela e entusiasta das manobras que faziam o navio comportar-se sob seu comando como se fosse uma pequena embarcação, vislumbrou no incidente uma rara oportunidade para treinar a tripulação na manobra de "homem ao mar" e autorizou que  dois voluntários saltassem no oceano, devidamente equipados, para resgatar o animal.

Uma embarcação, ainda mais de grande porte e de propulsão a vela, não tem como parar imediatamente para socorrer um náufrago.  Existem manobras iniciais diferentes para as diversas situações de velocidade inercial e vento, umas mais simples e rápidas, outras mais complexas e lentas, todas com o objetivo de prioritariamente retornar ao ponto o mais próximo possível do local do acidente. Foi nessa emergência que despontou a competência de nosso Comandante  e a destreza da sua afiada tripulação - depois de algumas manobras rápidas a proa estava de novo quase em cima dos náufragos, os homens foram resgatados sem maiores problemas, sob aplausos, e nossa rotina a bordo retomada. O animal era uma simpática e agradecida cadelinha fox terrier que foi engajada à tripulação e, em nome de Netuno, batizada Jeanne.



Eu e a Jeanne

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Esse incidente foi amplamente noticiado na época pelo jornal Última Hora, que lhe deu a capa do Segundo Caderno com direito a fotos e entrevistas. 






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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O NE Guanabara


O NE Guanabara, veleiro de três mastros foi construído em estaleiros de Hamburgo e lançado ao mar em 30 de Outubro de 1937, para desempenhar funções como navio escola da Marinha alemã. Ao final da Segunda Guerra Mundial, foi capturado pelas forças aliadas dos Estados Unidos da América, sendo vendido ao Brasil em 1948 por 5.000 dólares. Foi incorporado à Marinha do Brasil em 27 de Outubro do mesmo ano, para ser  utilizado como navio escola entre os anos de 1948 a 1961, quando foi vendido para a Marinha Portuguesa, que o rebatizou como NRP Sagres. Totalmente reformado e modernizado, continua em plena atividade divulgando a Cruz de Malta pelos oceanos do mundo.

NE Guanabara em 1953

Era uma embarcação espartana, tendo seu desenho e construção se pautado pela fidelidade aos primórdios da navegação a vela. Seu motor tinha força limitada e era coadjuvado apenas por geradores de eletricidade. Tudo que implicasse esforço a bordo - cabrestantes das âncoras, máquinas dos lemes, manobra dos mastros e velas - era movido pela força física e sincronizada da tripulação, como nos velhos tempos das galeras cabralinas.  Os marinheiros, nós inclusive, escalavam as enxárcias e se equilibravam sobre cordas nas manobras nas vergas para caçar as velas, sem qualquer equipamento de segurança.  Considerando que o mastro principal tinha quarenta e cinco metros de altura do convés ao topo, o equivalente a um prédio de quinze andares, não eram fainas agradáveis...


Trabalhando nas vergas


As atividades a bordo eram divididas em quartos de serviço, quatro horas cada turno em funções alternadas, e uma delas era a de vigia no cesto da gávea, ou seja, ficar todo esse tempo balançando a uns 30 metros de altura numa espécie de pequena varanda no terço do mastro, vigiando o mar numa era pré-radar. À noite, então, quando o horizonte se confunde com o céu, além de sinistra era totalmente inútil, exceto quando cruzávamos com alguma rara embarcação bem sinalizada. Mas havia quem vislumbrasse ali um bom local para cochilar.

Jofre, Laumar, Luis e Moniz

Outro quarto muito pouco popular era o de navegação, ocupado com medições (o navio ainda usava odômetro de barquinha, uma raridade!), plotagens com o sextante,  consultas a tabelas e tábuas de navegação,   e a transposição desses dados para a carta náutica usando réguas paralelas para definir, com larga margem de incerteza, a posição do navio no mar. Tudo aquilo que hoje o GPS informa instantaneamente era lenta e sucessivamente levantado, somado e calculado a intervalos regulares na atividade muito propriamente denominada navegação estimada.

Sorte minha que gostava desse trabalho continuado  no camarim de navegação, onde o tempo passava rápido,  e detestava a monotonia aérea do cesto da gávea, pois sempre conseguia fazer uma troca de funções com os preguiçosos da hora!  


O Guanabara navegando  a todo pano 


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domingo, 30 de janeiro de 2011

De velas e veleiros


Sempre fui fascinado por veleiros de qualquer porte.  A perspectiva de domar uma das mais imprevisíveis forças da natureza, de utilizar sua energia descontrolada para alcançar um objetivo predeterminado, de navegar em silêncio apenas quebrado pelo ruido das ondas lambendo o casco da embarcação, de sentir o afago da brisa no rosto é indescritível.  Somente quem experimentou entende o alcance dessa experiência.

Essas divagações afloraram ao conhecer um interessante video exibido pela TAM em seus vôos em que é apresentada ao público civil uma das mais singulares embarcações da Marinha Brasileira, o Navio Veleiro "Cisne Branco". Digno sucessor de outros veleiros famosos do século passado,  os navios escola "Almirante Saldanha" e "Guanabara", a nova embarcação tem atribuições de representação do país no exterior,  retomando com elegância e atualização tecnológica a tradição de quase todas as marinhas do mundo de reverenciar seu passado com os recursos do presente.


Navio Veleiro Cisne Branco

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Nunca embarquei no Saldanha, um dos mais bonitos tall chips de sua época, já que a missão desse veleiro de quatro mastros era realizar viagens de circumnavegação com os guardas-marinha recém formados, desde sua incorporação em 1934  - ano do meu nascimento - até dar baixa dessa atividade em 1954, meu último período na Escola Naval. Pode-se dizer que convivi com esse navio nos primeiros vinte anos de minha vida, embora à distância, e como seu fiel admirador senti como se me tivessem amputado os membros quando foi desarvorado, perdendo seus imponentes mastros para ser transformado em navio hidrográfico.



NE Almirante Saldanha chega ao Rio, 1936


Embarquei no Guanabara em meu último ano como aspirante na Escola Naval, em pequena viagem de instrução a Vitória (ES),  quando  já estava amortecido meu estusiasmo com a carreira militar e a romântica paixão por veleiros prestes a ser confrontada com a dura realidade das fainas a bordo. Foi um cruzeiro de surpresas e descobertas,  em que superei fisica e mentalmente tanto o desafio das entediantes rotinas do serviço como o das  perigosas manobras no mar, para ao final consolidar a convicção de que aquela, definitivamente, não era a minha vocação profissional. 



NRP Sagres, ex-NE Guanabara