quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre idosos e a morte que cai bem

Fui encaminhado à antessala do centro cirúrgico, no final de um longo corredor ladeado por quartos de portas abertas, onde se viam idosos adormecidos mantendo no rosto cones de plástico de auxílio à respiração. Uma cena atual, perturbadora e triste que estranhamente me lembrou o peculiar carnaval de Veneza, marcado por patéticas máscaras ornadas com plumas e dotadas de enormes bicos, que pretendem expressar alegria mas são apenas melancólicas. E que evoca também equipamento usado mais remotamente por gladiadores para proteger o rosto, quando em luta pela vida nas arenas. São situações diferentes em cenários diversos, voltados para um objetivo comum de difícil consecução, dadas as circunstâncias - a sobrevivência.
Evoé, Momo! Morituri te salutant.
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A enfermeira, simpática, pediu:
- Senhor, pode retirar e me entregar a prótese.
- Que prótese?
- Os dentes, a dentadura, senhor.
- São naturais, querida.
- Sei ...
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A semana foi marcada pela promulgação da lei que criou uma nova classe de idosos, a dos velhos preferenciais - aqueles que têm mais de oitenta anos. Não é nada, não é nada, não é nada mesmo e acho que os idosos carentes iriam preferir outro tipo de atenção à prioridade nas filas. Seja como for, o assunto suscitou algumas reflexões ligadas ao quesito velhice e em especial ao tema indesejado, mas inescapável, de como enfrentar e amenizar as sequelas gerais da visita amarga da Velha Senhora. Com esse enfoque ganha espaço na sociedade esclarecida a figura do testamento vital - documento feito enquanto você está consciente das suas decisões e que especifica quais são os tratamentos e procedimentos aos quais deseja (ou não) ser submetido em uma situação terminal, tudo abordado com clareza e objetividade no texto sugerido.
Vamos viver e desfrutar a vida com alegria e encantamento, enquanto nos for concedida essa benção, mas sem descuidar dos procedimentos capazes de humanizar seus nem sempre amenos desdobramentos finais.

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Meu avô materno e os brilhos da infância

Depois de alguns anos sem contato pessoal, devido às distâncias e desvios dos caminhos da vida, reencontrei na internet a família do meu tio mais novo, irmão caçula e temporão de minha mãe, hoje com 90 anos. Ao ver as fotos, pouco antes do dia dos pais, e dada a marcante semelhança física, lembrei do meu avô, com quem tive escasso mas saudoso relacionamento durante um curto e conturbado período de minha infância.
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Vovô Rogério era italiano e veio criança para o Brasil aos cuidados de parentes, como era comum na época. Foi registrado como brasileiro e logo que cresceu foi à luta, como também era costume na época. Radicou-se no estado do Espírito Santo, prosperou nos negócios, casou-se e teve nove filhos - cinco homens e quatro mulheres, entre elas minha mãe.
A memória recua aos nove anos, quando os percalços da Segunda Guerra Mundial desestabilizaram financeiramente várias famílias, inclusive a minha. Com o pai convocado e servindo ao Exército, fomos acolhidos na casa de meus avós maternos, compartilhada ainda com uma tia casada e sua família, e demais irmãos solteiros.
O avô era joalheiro, comercializava pedras preciosas, e passava a maior parte do tempo viajando, sempre portando uma maleta preta com divisões internas forradas em veludo também preto, onde reluziam gemas de bom tamanho e alto valor, junto com pequenos e caprichados embrulhinhos, que enfeixavam dezenas de pedras menores. Uma atividade impensável e quase suicida nos dias de hoje.
Era elegante, sério, discreto e falava baixo e pouco - apesar da sua origem peninsular.Tinha paixão pela sua atividade, e quando chegava de viagem fazia questão de nos mostrar as novidades, deixando todos fascinados com o brilho dos diamantes e o variado colorido das outras pedras. À noite, com filhos e netos reunidos à sua volta, abria prazerosamente a maleta em cima da mesa da sala, sob adequada e dramática iluminação, iniciando um ritual já conhecido mas sempre aguardado com ansiedade, quando metódica e didaticamente nos exibia cada peça comentando nome, pureza, tipo de lapidação e outras características que não compreendíamos bem, mas nos deixavam magnetizados mesmo assim.
Hoje, transcorridos tantos anos dessas tertúlias, a lembrança estratificada desses deliciosos momentos ratifica o entendimento que nos contatos afetivos o que importa não é a sua frequência, mas a intensidade da relação. 





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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Memórias: a Fazenda São João

A sabedoria popular aconselha não revisitar locais onde fomos felizes. O tempo passa e as coisas mudam, mas a decepção é certa. Motivado por uma referência ao excelente programa de cadastramento e visualização das propriedades rurais do Vale do Paraíba, desenvolvido pelo Inepac-Rio, e estimulado pelas facilidades digitais resolvi correr o risco e fazer uma sentimental visita virtual à Fazenda São João, que no passado distante frequentei com alegria. Se foi decepcionante constatar o ocaso de um ciclo social e produtivo que não integrei, mas tive o privilégio de ocasionalmente vivenciar, foi gratificante ter identificado em cada marco remanescente uma boa lembrança, um episódio inusitado, ou uma amizade efêmera que se perdeu no tempo. Foi doído, mas valeu!


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A Fazenda São João, fundada no início do século XIX, com foco na produção de café em grande escala, tinha originalmente 1.210 cafeeiros espalhados em 236 alqueires geométricos, e seu sucesso comercial valeu ao proprietário ser agraciado com a comenda imperial da Ordem da Rosa, em 1858. As seguidas vendas e secessões por herança, agravadas pelo fim do ciclo econômico do café, provocaram seu encolhimento e decadência. No final da década de 1940, quando a frequentei, estava reduzida a uma fração da área original, embora bem cuidada, e se sustentava com uma produção residual de café, leite e derivados, além de processar cana em cachaça, açúcar mascavo e rapadura.


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Era complicado chegar lá. Embora geograficamente localizada em Paraíba do Sul, o acesso era feito por trem até Vieira Cortez, e de lá à propriedade em lombo de cavalo, num percurso de quase três horas. Um telegrama enviado com bastante antecedência para a posta restante combinava tudo e o caminhão que fazia a coleta diária do leite das fazendas se encarregava da entrega - ele era, aliás, o único meio de comunicação regular entre o vilarejo e as propriedades, e eventualmente transportava passageiros, correspondência e pequenos volumes. Os cavalos que conduziriam os visitantes ao seu destino eram levados cedo á estação ferroviária por um peão, e na volta se arrastavam a passo lento pela estrada poeirenta, mas iam ficando mais espertos na medida em que se aproximavam de casa e após passar a última porteira até precisavam ser contidos, tal a ânsia em alcançar as cocheiras. Assim como eles, nós visitantes também espantávamos o cansaço e ganhávamos novo alento ao ver surgir no horizonte a sede da fazenda, com sua longa e simples varanda linear pontilhada por janelas e enfeitada internamente com pinturas murais, contraditoriamente escoltada pela exuberante capela dedicada a São João Nepomuceno, o mártir da discrição. Ainda bem cuidada, embora com pitadas de modernização, como as janelas basculantes de ferro que substituíram as originais de madeira na varanda, a construção contrasta com o cenário desolado do entorno.

 

 


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A lavoura de café foi a responsável pelo desmatamento na fazenda, seu apogeu econômico e o panorama atual de incipiente desertificação. A plantação original foi feita em terras de mata derrubada, como era costume na época, e quando os cafeeiros abandonados morreram sem que fosse feito o indispensável remanejo de culturas, o solo se degradou. No grande pátio em frente à varanda era feita a secagem solar dos grãos do café, que já haviam passado pelos tanques de lavagem diretamente após a colheita. Chegavam em pequenas carroças basculantes, a carga derramada era pachorrentamente espalhada e revirada pelos colonos com o uso de grandes rodos de madeira, e o lindo tapete mesclado pela variedade de cores dos grãos, exalava ao calor do sol um inconfundível e inesquecível aroma misto de terra molhada e café. Como esse processo passou a ser feito mecanicamente e em caldeiras, toda a beleza plástica do processo evaporou junto com a umidade.


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Não havia energia elétrica, mas a fazenda dispunha de uma usina simples, composta por uma roda d'água e um gerador de baixa capacidade. Um mesmo riacho supria as necessidades da casa, movia a roda e enchia os tanques de lavagem do café, que serviam de piscina na entressafra. A claudicante energia gerada só era suficiente para alimentar algumas poucas lâmpadas fracas e um rádio de válvulas, estilo capelinha, que junto com os receptores de galena montados por alguns moradores habilidosos era o centro das atenções às sextas feiras, quando ia ao ar um programa com o festejado ator, compositor e cantor Vicente Celestino. Acompanhado reverentemente por todos, dono de um vozeirão inconfundível e de um repertório um tanto brega e sinistro, alguns de seus sucessos - O Ébrio, Coração Materno, Porta Aberta etc. - ficaram marcados e até hoje ecoam na minha memória.


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Um pequeno canavial sustentava a produção artesanal de cachaça, açúcar e rapadura, sendo a cana esmagada em moenda movida por tração bovina, num processo lento e pouco eficiente. O bagaço residual era picado num cortador manual e dado como ração ao gado, e a cachaça destilada era envelhecida em grandes toneis de madeira, instalados com o alambique em galpão à parte.Tudo era devagar naquela época e naquele lugar, com as coisas acontecendo em ritmo mais ou menos inercial, sem grandes surpresas ou sobressaltos mas com impacto suficiente para marcar minha juventude e justificar a revisita nostálgica ao passado. Tudo considerado, talvez não tenha sido uma má ideia...




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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Vices: de Jango a Temer

Em março de 1964 eu tinha redondos trinta anos e estava em um bonde a caminho do trabalho quando ouvi um jornaleiro apregoando a manchete do dia - Jânio Quadros renunciara e a posse do seu vice João Goulart, em viagem no exterior, estava sendo questionada. Nos dias seguintes instalou-se o caos político, administrativo e hierárquico no país, com os movimentos esquerdistas tentando empalmar a condução dos destinos nacionais. Fiquei especialmente assustado com as imagens de João Goulart aceitando ser festejado por soldados e sargentos amotinados, nos salões do Automóvel Clube do Brasíl. A mobilização popular pela democracia e restauração da ordem que se seguiu deu-se pelas várias Marchas da Família e culminou na deposição do presidente pelos militares, iniciando uma ditadura que durou 21 anos, fez alguns estragos nos direitos humanos dos terroristas que a combateram, notabilizou-se por gerar o chamado Milagre Econômico e auto encerrou-se por esgotamento do modelo.
Desde a proclamação da República o Brasil tem uma história conturbada de vices que assumiram a presidência, sob os mais variados motivos, e até 1964 Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Delfim Moreira e Café Filho tinham sido elevados a primeiros mandatários durante seus mandatos. Já o regime militar começou, decorreu e acabou balizado por incidentes envolvendo os vice-presidentes do país, sendo João Goulart o primeiro a ascender de coadjuvante a protagonista eventual nessa nova fase, por força das artes e artimanhas do destino. A ele se seguiram em intensidade variável Pedro Aleixo, Aureliano Chaves e já na redemocratização José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer - este último vivendo contestação tão acirrada quanto Jango, embora por motivos diversos.
Já se disse muitas vezes que nada acontece por acaso e que a história se repete como farsa, mas se a anarquia do curto período João Goulart justificou a intervenção militar e tudo que aconteceu de economicamente positivo depois, o que nos reservaria de bom o desdobramento dessa imensa crise moral, administrativa, institucional e ética que marca a infeliz passagem do vice Michel Temer pelo Planalto?

domingo, 11 de junho de 2017

Brasília, anos '70: bomba, bomba!

 As violentas manifestações de protesto e os atos de vandalismo exacerbado estimulados por movimentos de esquerda, acontecidos recentemente em Brasilia, me lembraram as ações de contestação à ditadura que pipocaram pelo Brasil durante o governo do General Médici, contrapostas à evidente simpatia que o mesmo despertava em segmentos das classes média e popular. Enquanto a esquerda praticava atentados, com mortes de inocentes, o general responsável pela repressão e mortes de subversivos era aplaudido no Maracanã, onde acompanhava os jogos do Fluminense. O que se vê hoje é a esquerda ainda desvairada e radical, pra não dizer incendiária, sem o contraponto de políticos dispostos a arrostar as massas no Maracanã, desde que Dilma e Lula foram gentilmente convidados a tomar caju, durante a Copa do Mundo de 2010. 
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O vice-presidente de Médici era o almirante Augusto Rademaker, figura de prestígio nas Forças Armadas e que hoje dá nome a belonave de nossa Marinha de Guerra. Por falta de local mais apropriado, Rademaker ocupou com seu gabinete todo o vigésimo e último andar do então prédio sede do Banco do Brasil, um dos primeiros edificados na Capital e materialização do princípio universal do onde vai o dinheiro todos vão atrás. Era uma construção sem maiores luxos mas bem acabada, apesar de ter sido projetada e erigida "no ritmo de Brasília" - o que na época podia significar muitas coisas. Por coincidência, a sala do almirante ficava exatamente em cima da minha, localizada no 19° pavimento, e como ele eventualmente convidava funcionários do banco a compartilhar o elevador privativo, acabei por conhecê-lo pessoalmente e a trocar cumprimentos formais. Era um sujeito simpático, não há como negar.
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Certa manhã houve um alarme de ataque terrorista ao prédio, mais especificamente ao gabinete da vice-presidência da República. A ordem de evacuar o edifício imediatamente, sem usar elevadores foi precariamente disseminada por telefone e por agentes que percorriam os pavimentos, tudo inacreditavelmente improvisado, especialmente se considerado o clima de conflito imperante. As escadas, embora espaçosas, serviam de comunicação entre os saguões dos elevadores e entre eles e os corredores internos, eram abertas e ficaram apinhadas de gente que descia ansiosa, muitos justamente aterrorizados. Desabei pelos dezenove pavimentos em poucos minutos que me soaram como horas, e ao conseguir finalmente deixar o prédio com um grupo final de colegas aliviados constatamos estarrecidos que uma construção daquele porte, que inclusive acolhia parte de um dos poderes da República em época socialmente conturbada, não dispunha de escada contra incêndio e pânico! O alerta revelou-se falso, mas a insegurança que ensejou foi verdadeira.
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Tempos depois, ante as evidências de que o incidente poderia ter tido trágicos desdobramentos, foi instalada no prédio uma escada de incêndio metálica externa, nos moldes daquelas existentes em imóveis antigos de Nova York, mas considerando a altura do edifício, a perspectiva de sua utilização era simplesmente aterrorizante, e logo que possível o edifício foi desativado e deixou de acolher seções do banco. Ao ver as imagens dos ministérios queimando em Brasília, lembrei-me do incidente da bomba, e tive uma dúvida: será que tinham escadas apropriadas?... 


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